TENTEI ser AuPair - e não rolou

sábado, abril 19, 2014 Aline 6 Comments

Eu tenho vontade de postar e continuar essa minha jornada pessoal aqui no blog diariamente. A questão é: meu senso de organização não me permitia seguir em frente sem ao menos explicar - ou resumir - o que aconteceu. Percebi que tinha mais gente vindo aqui do que imaginava, e em consideração, vamos dar continuidade.

O processo de "largar tudo", desapego e a reviravolta todo mundo acompanhou por aqui - e é possível reviver aquele melodrama se procurar nos posts anteriores. Foi uma fase tensa, em vários sentidos: abri mão de MUITA coisa, desde amizades até mesmo uma oportunidade profissional promissora. O objetivo seria manter-me nos USA pelo período de 1 a 2 anos, trabalhando como AuPair e aprimorando meu inglês, adquirindo em paralelo outros conhecimentos.

Voltando um pouco no tempo, lá em 2008 - antes mesmo de completar 20 anos - me vi numa sala de cirurgia para "retirar" uma hérnia de disco. Para ser mais específica, um dos discos que suporta minha coluna vertebral estava "frouxo" e havia rompido, ganhando espaço para pressionar meu nervo ciático da perna esquerda. Isso geralmente ocorre com pessoas mais idosas, mas em meu caso, talvez por um exercício físico mal feito, ou levantar algum peso de forma incorreta - nem eu, tampouco os médicos conseguiram uma explicação. Por ser muito "nova", antes de partir para o plano cirúrgico, fui encaminhada para longas sessões de fisioterapia, acupuntura, massagens e todos os outros resultados que apareceram no Google. Porém, a medicação foi aumentando, a dor tornando insana e passei a me movimentar somente com uso de muletas. Implorei por uma cirurgia e cheguei ate a ouvir que "poderia perder os movimentos da perna". Eu só queria não sentir mais dor.

Fiz todo esse revival para poder relatar com mais exatidão o que causou meu retorno ao Brasil, após aproximadamente 2 meses nos USA: a hérnia esta de volta! Os últimos 5 anos vivi como se não houvesse qualquer problema físico que pudesse me abalar. Corrida, bicicleta, academia e até aqueles brinquedos doidos do Hopi Hari, de saltar metros de altura, fizeram parte de minha rotina. Achei que estava apta, mas ao carregar as duas malas de 32kg + as outras duas de mão (que eu abusei, já que a cia aérea não averiguava o peso) e encarar um inverno de -20C senti que meu corpo não estava o mesmo. Abaixava a cada micro segundo para tirar as coisas que as kids jogavam no chão (quem foi Aupair tem ideia do que falo), neve congelada do pneu do carro, entre outros trancos que de nada cooperaram. Em minha terceira semana, a perna esquerda - aquela, da outra vez - começou a formigar; estava no cinema assistindo Frozen e não encontrava uma posição decente para ficar sentada. Naquela noite, não dormi. E nem nas outras 30 e poucas que vieram a seguir.

No terceiro dia de dor forte, eu nao suportava sentar; passei uma tarde toda deitada no carpete da sala de bruços enquanto as kids brincavam e jantei em pé. Obviamente a host mom já estava pra lá de preocupada e marcou uma consulta para a manhã seguinte, aquela que eu mal conseguia fazer qualquer movimento com a perna esquerda. Fomos ao hospital e uma enfermeira me atendeu - so para explicar, por la nao e muito comum médicos atenderem como no Brasil, posso explicar caso alguém se interesse. Informei que havia operado da coluna anos atras, ela prescreveu alguns remédios e me mandou para casa. Detalhe: minha dor nos USA em 4 dias alcançou o mesmo nível do que estava antes da cirurgia em 2008, e um remédio qualquer não fazia efeito. Obviamente, os que ela prescreveu, não adiantaram.

A sobrinha da minha host, que é fisio em algum outro grande hospital, me indicou vários exercícios físicos - que me fizeram rir, já que eu mal conseguia dobrar a perna. Ouvia a voz brava da minha host: "Mas você precisa tentar!". Puta que pariu, como posso fazer uma semi posição de ioga se nem sentar consigo? Fui ao hospital outras vezes, e consegui com uma enfermeira um remédio parecido ao que tomei em 2008, a base de codeína. Eram 4 capsulas por vez, o suficiente para aliviar 50% da dor - mas ao mesmo tempo, me deixar bem drogada (minhas friends de la são testemunhas bem assustadas). Ai começou o questionamento se valia a pena ou não eu continuar por la. Resumindo os fatos, mais uma vez:

A tomografia poderia dizer se era hernia ou não, mas meu seguro não cobria e eu desembolsaria quase USD 1000 / Na segunda semana com dor, já havia gasto mais de USD 400 com remédios, pois o seguro também nao cobria / A host estava preocupada, e ao mesmo tempo, começando a perder a paciência / Passei virada de ano e todos os dias e noites em casa, sem poder sair ou ter qualquer momento de lazer - qualidade de vida? Nao tinha deixado o Brasil para isso / Eu continuava trabalhando, e dirigir as crianças era um verdadeiro tormento; sentia uma faca cortando minha perna e como podia estar dirigindo semi-drogada e com dores a ponto de perder o controle da direção? Aonde fica a segurança e cuidado com as vidas ali envolvidas?

Poderia elaborar uma lista de situações, mas ate o momento eu sei que foi a melhor decisão que tomei. A melhor decisão não, talvez a unica disponível. Voltar ao Brasil antes de ter cumprido nem metade do que previa me trouxe vários conflitos internos que nem imaginava ter, e junto com o problema na coluna, passei a lidar com a depressão e a amarga sensação de fracasso. Numa situação dessas, não basta decidir e vir embora. Envolve mais gente do que deveria: família no Brasil, namorado, host family, agencia, amigos feitos la. Envolve o psicológico: ter planejado dois anos inteiros, viagens, cursos - e de repente, nada daquilo existe mais. Envolve o financeiro, sendo que foram quase R$ 5000 na passagem de retorno, mais os custos com medico e tratamento no Brasil (ja que estava sem convenio medico). Mata a autoestima, o bom humor e principalmente, TODOS OS SONHOS.

Nao, ninguem morreu. Ninguem teve câncer, passou fome, perdeu um ente querido. Mas, como dizem por ai "cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é". Eu julgava ser muito mais forte, e com isso descobri que dentro de nos existe tanta coisa que mal temos conhecimento - monstros, fantasmas e felizmente, anjos. Essa sera uma marca que levarei pela vida toda, e algum dia direi com alegria: "que bom ter passado por tudo aquilo".

Nessa semana terminou meu pacote de "fisioterapia especializado em hernia de disco para pessoas que não querem operar" - quem quer saber mais sobre o problema e essa solução alternativa, clique aqui. As sessões de descompressão e tração aliviaram e de quebra ainda aprendi a fazer vários exercícios físicos utilizando outros músculos e os fortalecendo para não forcar mais a coluna. A hernia continua ali? Sim, e só sairá com cirurgia. Porem, apos visitar dois médicos especialistas (inclusive um deles foi o que me operou anteriormente), a certeza que fica é que ela voltara - desta forma, me forço a evitar o quanto puder o procedimento cirúrgico. Hoje, apos 4 meses daquela crise insuportável, ja não tomo mais os medicamentos fortes e a dor que sinto continua constante e diária, porem, muito mais fraca do que estava.

Ja estou retomando alguns projetos que havia deixado em stand by, como escolher cursos e assim que o emprego novo chegar, pós graduação. Aos poucos as coisas vão se encaixando e posso ate dizer que brota na minha cabeça pequenos novos sonhos - que agora serão realizados com mais tempo, cautela e com toda certeza, rodeados por um plano B. Retomar o blog já e um grande passo, visto que eu evitava falar sobre esse assunto e agora ja o encaro como passado.

MUITO OBRIGADA a todos que se preocuparam e quiseram dar uma forca - todas as palavras, por mais curtas e rápidas que tenham sido, fizeram diferença! E meu mais do que obrigada ao meu parceiro Marcus, que me deu suporte físico na volta para o Brasil (e me deu alguns momentos de felicidade em Chicago) e tem sido um grande apoio psicológico. 

Feliz Páscoa - e feliz renascimento - a todos!

6 comentários:

  1. Linda, antes de tudo, que saudades de vc, desse blog, de ler essas suas reflexões. Que bom te ter de volta e saber que vc está bem. Vc é mais forte do que pensa! O que te aconteceu seria de pirar qualquer pessoa, mas aqui vc está, mais forte e mais sábia. Te admiro muito.
    Um grande beijo e espero que continue escrevendo aqui.

    ResponderExcluir
  2. Aline querida!

    Tendo acompanhado sua jornada, assim como os comentários que você deixou em meu blog, posso dizer que você é sim corajosa e te parabenizo pela fibra que tem.
    Voltar ao Brasil ou permanecer nos EUA, realizar os sonhos antigos ou gerar novos sonhos, nada disso te desmerece ou anula.
    Posso imaginar como foi difícil a decisão e como deve estar sendo toda a readaptação, mas esse não é o fim de sua jornada e de quem você é, dos planos que tem e de sua identidade.
    Conte comigo e agradeço a inspiração positiva que é.

    Beijos!!!

    Nath,
    www.brazucaupair.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. Ai, Aline, que dor no coração ao ler seu post, sinto muito por tudo isso! Que pena que a dor voltou justo quando você foi realizar seu sonho. É muito compreensível que você esteja triste, e nem precisava explicar que "ninguém morreu, ninguém passou fome", pois como você disse cada um sabe o que passa em seu coração, não dá pros outros ficarem julgando. Estou torcendo pra que sua dor não te atrapalhe tanto mais e que logo seus planos se tornem realidade!!

    beijos

    ResponderExcluir
  4. Caraca, que história! Acabei de chegar no teu blog e te conhecer, mas já te admiro, adoro pessoas com força de vontade e determinadas! Mas por mais que sejamos determinadas e conscientes do que queremos, às vezes a vida nos pega de surpresa e aí o negócio é escolher a opção "menos pior". No teu caso, você não tinha outra escolha senão voltar, mas tenho certeza de que teu caráter é forte e você ainda vai realizar vários e vários sonhos! :)

    Abraços,
    Lidia.

    ResponderExcluir
  5. Meninas,
    Só agora parei para reler esse post e me dei conta que haviam comentários que não havia respondido.

    Obrigada pela força, pelas palavras! Já se passaram quase 9 meses e eu estou vivinha da Silva Inácio, sem dor e praticando esportes novamente (para espanto do médico!).

    Um beijo a todas!

    ResponderExcluir
  6. Aline, caramba! Não sabia que tinhas passado por tudo isso! Imagino o quão complicado deva ter sido, ainda mais longe de casa, porque, querendo ou não, estando aqui as coisas são tão mais fáceis (por mais que não pareça na questão da saúde). Mas enfim, fico feliz por as coisas estarem dando bem pra voce, apesar dos pesares. E, como comentei, admiro demais todo o seu esforço e dedicação, e sei que você logo logo terá muitas outras oportunidades bacanas pra realizar todos os seus sonhos.

    Boa sorte! beijo!

    ResponderExcluir