Viagem, minimalismo, cartão de crédito e desapego

segunda-feira, setembro 08, 2014 Aline 32 Comments

"Aline, desencana... é impossível viajar sem ter um cartão de crédito!". 

Hoje quero detalhar aqui o planejamento do meu primeiro intercâmbio, e gostaria que ele servisse de incentivo a qualquer um que sempre sonhou em viajar, mas a situação financeira simplesmente não coopera.

Antes de mais nada, viajar hoje em dia é um verbo possível de conjugar por qualquer um - e não faço dessa minha afirmação um pré-conceito voltado as classes sociais. Nunca se viu tantas matérias por aí abordando como as classes D e C hoje conseguem chegar até a Disney, por exemplo. Que alegria, que vitória! Um país de igualdade, será?! Mas qual o preço a ser pago por 7 dias em terras estrangeiras, com passagens internacionais acima dos R$ 3/pessoa num ambiente propício a obter facilmente - e por pouco - um Playstation de última geração? Quantas dívidas e parcelamentos infinitos surgem?

Eu cresci em uma família sem ensino superior, e sem ao menos completar o antigo "colegial"; sou uma das poucas netas, de ambos os primogênitos, a me formar numa faculdade. Tenho orgulho em dizer que minha mãe tem como profissão limpar a casa 24h/dia e meu pai, motorista. Tenho mais ainda prazer em dizer que mesmo com a pouca renda, conseguiram educar a mim e minha irmã mais velha.

Talvez por isso, meu pai nunca foi "esbanjador". O importante sempre foi comprar arroz e feijão, nada além; eu usava roupas que minha irmã não mais queria (pois ela já podia trabalhar) e aos 16 anos, entrei no mercado de trabalho. Meu primeiro salário! Corri comprar um tênis e minha até hoje bicicleta - que foi por anos minha condução. Vivi ouvindo que o dinheiro podia acabar, que eu precisava poupar, que nunca deveria viajar, que não valia a pena comprar uma comidinha diferente. Nunca na vida acreditei que teria o direito - sim, o direito! - de atravessar um oceano. Isso é coisa pra rico. Eu não sou rica.

Aos 20 consegui um emprego numa famosa multinacional, como estagiária. Meu mundo virou. Todos participavam de happy hours as quintas, saíam após o expediente na sexta para as compras nos Iguatemis da vida, aproveitavam as melhores baladas no sábado. Eu não sabia quem eu era, nunca tinha tido aquilo, o mundo estava se abrindo e uma dívida enorme com cartão de crédito eu ganhei, por anos. Aquela experiência me manchou por dentro, e eu me descobri. Por que precisei de uma bolsa Kipling de R$ 500? Quem era aquela Aline? Eu era tão carente assim para precisar gastar o que não tinha para me sentir "querida"?

Aquela Aline perdeu-se por um tempo num mundo consumista e absolutamente envolvido no "futilismo" das compras e do "ter", até que aprendeu que não precisava de nada disso. Todos os colegas indo à Alemanha, Estados Unidos... e ela lá, apenas tendo a certeza que não era digna daquilo tudo. Não é seu mundo, Aline.

Já aos 24, a boa notícia: efetivação no trabalho! Todos os estagiários efetivados comprando o primeiro carro - alguns já tinham ganho dos pais - e eu definitivamente precisava ter o meu: trabalhava 50km de casa e utilizava o carro do pai, pagando devidamente combustível e derivados. Um carro novo seria meu e ganharia mais liberdade (eu não podia usar o do pai pra sair ou "rolezar", para ele carro é só a trabalho), mas definitivamente, consumiria quase que boa parte do salário. Até que...

Deixei o "namorado" que chantageava pelo "se você viajar, a gente termina". Deixei de lado também a vontade de ter o carro próprio e decidi investir em minha primeira viagem. Meu pai me chamou de louca e sem juízo - adjetivos que me cercaram pelo resto do tempo até eu viajar. Convivi com o "não vou te ajudar com um centavo", com o medo e desespero de não conseguir pagar. Tive o financiamento primeiramente reprovado pela dívida anterior com o cartão de crédito. Chorei com receio de tentar viver algo que não era para mim. Aquilo era um desafio de cunho psicológico extremamente pesado e eu sabia que teria que vivê-lo sozinha.

Não tinha mais cartão de crédito. Não tinha poupança. Não tinha ajuda dos pais. Ninguém podia me ajudar. Éramos o salário e eu. Ainda restavam crediários em lojas de roupas, ainda tinha o combustível mensal (que era superior a R$ 600/ mês) e todas as despesas com o carro do pai - que ele dizia diariamente que não iria ajudar. Mas ainda havia esperança.

Por meses pesquisei destinos e implorei pra chefe não me mandar embora no período de um ano - eu tinha um medo terrível de ficar desempregada e não ter como arcar com o financiamento da viagem. Foram 8 parcelas - porque brasileiro precisa ter uma dívida pra ter certeza! - de insônia, pagando a escola e a estadia, de pouco mais de 3 semanas. Eu queria ficar fora por 6 meses, mas quem bancaria? Se um mês já estava complicado... 

Passei muitas vezes em frente de lojas, mas assim como os convites de happy hours, eram recusadas pela minha razão. Um garoto me convidou para sair e eu não encontrava uma roupa decente pra usar, convenci minha mãe a emprestar R$ 50. Ele desmarcou comigo. E eu aprendi mais uma vez como não precisava encontrar um motivo para gastar e impressionar os outros. Recusei saídas até aprender a lidar com a falta de dinheiro e com a vontade de não mais me endividar: quando saía, explicava que iria pela cia da pessoa e que só ia tomar uma cerveja. Ou dividiria uma batata frita. Contava as moedas do cofre, passei a combinar melhor minhas roupas. Fui descobrindo aos poucos quem eu era, e que não adiantava eu comprar uma calça jeans porque afinal, eu detesto calça jeans! 

A falta de dinheiro obviamente tinha um objetivo: em tantos dias (como fiz aqui no blog minha contagem regressiva) iria conhecer meu sonho de criança, a Inglaterra. Saber que a viagem estava chegando me dava forças para ficar em casa em um sábado a noite, assistindo a qualquer filme que envolvesse a cultura/história do país. Me deu forças para também não entrar em mais relacionamentos que me tirassem do foco, ou que simplesmente me desgastassem... quem iria entender que eu não podia gastar? Aliás, ser minimalista é aprender a não depender tanto psicologicamente de pessoas. O desapego passa - e deve ser - geral! 

Todo dia 5 caía em minha conta o salário, e no mesmo dia, o financiamento da viagem. Quando conseguia restar R$ 100,00, ligava correndo pra casa de câmbio e comprava míseros £ 30. Eu pensava que ao menos o dinheiro de refeição pra dois dias eu teria. Um dia comprei só £ 10. Foda-se, era 25% do valor de uma volta na London Eye paga. Valia menos que uma balada com os "amigos"?

Da Aline que gastava horrores e se endividava, passei a ser uma pessoa mais focada e até insuportável. Respirava a viagem e cada minuto ocioso no trabalho não era mais ocioso, era Google Maps. Eu precisava ser insuportável, precisava ficar longe de quem me convidada pra programas consumistas, não ter crédito e só uns 10 conto no débito. Aprendi a valorizar meu dinheiro, já que ninguém o faria por mim. Valorizei meu tempo, sapatos não eram mais desculpas para a cura da carência, não tinha mais balada com música que eu nem mesmo curtia. Acrescentei muitos filmes e livros na rotina, e atraí muita gente que tinha a mesma visão que eu.

Um carinha bonitinho do trabalho se mostrou super atencioso explicando sobre os hosteis de Londres. Em nosso primeiro encontro, usei um shorts bem batido com meu tênis preferido - e já velhinho - e tive o melhor primeiro encontro do mundo. Tomamos um simples açaí, não gastamos quase nada e tampouco precisei de uma peça nova de roupa pra impressionar o garoto - que hoje continua sendo meu melhor amigo e namorado. A simplicidade e o minimalismo se tornaram aliadas nos melhores momentos. Não precisava mais gastar horrores pra ser aceita num círculo social que eu ao menos nem me sentia bem. 

Terminei o financiamento, paguei as 5 parcelas de aéreo, comprei pouquinho dinheiro e faltando um mês me desesperei: "só isso não vai dar". Liguei no RH, pedi um super favor com o cálculo do que conseguiria com a 10ª parcela do 13º, ufa. Levei o suficiente. Não comi em restaurantes 5 estrelas, mas provei comidinhas de ruas que até hoje lembro o gosto. Não andei nos taxis pretinhos, mas aluguei uma bike por míseros £ 2 por um dia todo e fui desde o Hyde Park até a London Eye, pedalando, parando por cada ponto de interesse e realmente vivendo.

E o tal minimalismo que adquiri enquanto planejava e pagava antecipadamente a viagem fez presença no decorrer: não saí comprando mundos e fundos. Comprei apenas uma super jaqueta para frio/chuva e um tênis Converse com os desenhos de UK, meu souvenir até hoje. 

Não passei vontade de nada - tomei várias Guinness (a ponto de sair vomitando por Dublin! Inesquecível! haha), comi tudo quanto é doce que vi pela frente e o mais legal: quando voltei não tinha fatura de cartão pra pagar. Eu vivi exatamente o que sonhava, foi perfeito e cada centavo não gasto com roupas, sapatos e luxos valeram a pena. Não há Carmen Steffens que se possa se equivaler a qualquer momento vivido.

Tenha em mente: É POSSÍVEL sim viver sem cartão de crédito e sem consumismo.O começo pode parecer difícil, mas analisando bem... consumismo nunca é bom. Além de apego, ninguém quer ficar endividado. E viver com menos é se conhecer: combinações com roupas, compras simplificadas em supermercados - comendo menos e melhor - e claro... dessa vida, nada a gente leva! 

Menos sempre é mais, não tem como discordar.

Inspire-se e tente! :)



Post dedicado aos colegas do grupo Vida Minimalista.

Aqui tem outro post que falo sobre viajar sem ser rica!

32 comentários:

  1. Ei Aline! Que bacana o seu depoimento! Parabéns por essa conquista e que seja a primeira de muitas outras!

    Um beijo!

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    1. Olá, Bruna!
      Muito obrigada! :)
      Já adicionei seu blog em meus roll!

      Beijo!

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    2. Aliás, seu blog é muuuito bom... porém não consigo comentar! :/

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  2. Que perfeito seu relato flor !

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  3. É, de fato eu posso afirmar q conheci essa aline minimalista, que por sinal juntava moedinhas num pote de carolinhas do frango assado pra poder ajudar na viagem(vc esqueceu dessa, ne? :P). No final, essas moedas renderam quase todas as brejas que vc tomou por la :P. E ao contrario do que vc diz, vc não e uma minimalista insuportável, vc apenas se controlou no impulso de comprar coisas q vc não usaria(algo q eu preciso aprender com com aliexpress. Alias, ta precisando de algo?? :P kkkkk) ou poderia comprar mais barato/melhor la fora.

    Consegue me ensinar a ser minimalista na comida?? kkkkkk

    Te amo muitao and keep writing!

    s2

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    1. De fato acho que precisamos aprender juntos o minimalismo na comida! :p

      Obrigada pelo apoio e por me aceitar assim! Não quero Alie, tire isso de perto de mim! hahahaha

      Te amo ♥!

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  4. Fiquei admirada com a sua força de vontade para a viagem. Tenho muita vontade, mas não sou tão controlada ainda! Preciso concordar com você: menos é sempre mais!
    Beijos

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    1. Olá, Renata!
      Acho que eu só adquiri o controle porque precisei, viu... E ainda hoje tenho dificuldades! hahaha
      Seu blog já está em meus preferidos!

      Beijos!

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  5. Muito bom seu texto! Parabéns, realmente inspirador! :)

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  6. Parabéns Aline. História inspiradora, superação e muito minimalismo, aprendi muito com a sua história, me deu um novo gás pra continuar no caminho!

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    1. Alan, muito obrigada!
      É como estava comentando ontem: assim como um viciado em álcool não pode sentir cheiro de cerveja pra não cair em tentação, eu não posso ter um cartão em mãos. É uma luta diária! :)

      Já adicionei seu blog em meus preferidos!
      Beijos!

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    2. Ahhh que legal, seu blog está na minha lista de inspiração. hehe Virei constantemente te visitar e encher de perguntas sobre viajar sem ser rico. Bjo

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  7. Você é fera demais :) Quanta determinação, é um aprendizado a cada novo post.

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  8. Posso dizer? Melhor post ever. E consegui me identificar mais ainda com você. Sabia que meu paps também é motorista? E é o maior orgulho da minha vida, meu grande amor.
    Aline, você disse tudo. Com esforço e dedicação, nada é impossível. É se descobrir uma nova pessoa. Mais madura e dona de si. Você é um exemplo.
    Bjooooo

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    1. Paulinha,
      Acho que toda fase, seja ela de exageros ou desesperos, nos traz algo bom né?! Passei uns 20 e tantos anos sem saber quem eu realmente era!

      Pai motorista é bom, sempre traz alguma comida de um lugar que vai! hahaha Gorda feelings!

      Beijinhos e muito obrigada <3!

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  9. Aline, tentei deixar um comentário antesas acho que não foi. Se tiver ido apaga um deles, tá? :)

    Então; me emocionei com sua história... me identifiquei muito. Também vim de uma família que não finalizou nem o antigo colegial, também nunca pude contar com o apoio da minha mãe porque ela nunca concordou com minhas escolhas, também me endividei com o primeiro emprego e hj teria usado meu dinheiro bem melhor, não com bolsas e sapatos... sempre me virei sozinha, me virei pra aprender outros idiomas sem grana, me virei pra conseguir viajar mesmo ouvindo que aquilo era coisa pra rico, me virei pra pagar minhas contas e nunca usei cartão de crédito... Posso não conhecer hotéis de luxo, não ter roupas de narcas famosas, etc, mas eu tenho orgulho do que consegui fazer por mim. Fico muuuuuiiiito feliz em ver que há pessoas assim como você, espalhando esse exemplo! Parabéns, querida!

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    1. Estamos juntas nessa, Vanessa!
      Mas como mencionei a Paulinha, essas fases nos fazem um mal imediato, porém um bem enorme no futuro! Aprendemos muito e em nosso caso, a direcionar o dinheiro para algo que acrescenta muito mais do que bens de consumo!

      Que venham nossas próximas conquistas!
      Um beijo!

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  10. Aline, eu amei o post!!!! Me inspirou a realizar meu sonho, que antes parecia impossivel. Você escreve super bem

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    1. Oi anonimo! :)
      Que bom que consegui te inspirar, espero que consiga realizar seus sonhos... a vida é uma só! :)
      Um beijo!

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  11. Aline,

    Lendo seu post eu consegui me ver nela, passei 6 meses Sem comprar uma peca de roupa, nem mesmo calcinhas rs as vezes minha mae sentia "Pena" de mim e comprava algumas calcinhas hahahaha eu dizia que eu precisava economizar para vir pra ca, recusei alguns rolezinhos que costumava fazer por roles mais em conta, tirava do meu salario sempre entre 150-200 (qndo dava) e assim foi por mais de um ano.
    No inicio deste ano tive uma conversa com meus Pais e o meu pai tb foi bem claro :"nao vou te ajudar em nada e vou cancelar o seu convenio" (o que era umas das poucas coisas que ele me ajudava),
    Rs Ah o meu pai, ele costuma fazer chantagem para conseguir certas coisas, chegou a se oferecer para me ajudar a comprar um carro se eu nao viesse para ca, mas nada disso adiantou, fiquei com medo claro, mas aqui estou eu, tentando construir sozinha a minha propria historia.
    Mas eu acho que eh possivel sim, viajar Sem mt grana ou cartao de credito, mesmo porque eh dificil eles pedirem para ver se vc tem ou nao cartao internacional (mesmo sendo obrigatorio para alguns paises)
    Se vc sabe o que quer e sabe o que fazer fica mais facil de focar nos objetivos e sabe automaticamente o que deve ser mudado, afinal nao podemos querer tudo, sempre digo isso para minha Irma, mas a forca do consumismo eh mais forte do que ela hahahahaha

    Beijinhos, estou aqui na torcida por ti guria

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    1. É Mari, não é fácil! rs
      Antes de eu ir pros USA meu pai também fez a mesma proposta, de me ajudar a comprar um carro (só pra eu não ir). Massss, foco é foco e todo mundo vai tentar, in ou conscientemente tirá-lo.

      Acho que consumismo é igual ao açúcar: a gente acha que precisa daquilo, fica com uma vontade enorme, consome em exagero e depois fica mal! hahaha

      Beijão querida!

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    2. Aline,

      O que vc acha de ser Au Pair na Alemanha?


      Realmente ultimamente eu tenho gastado demais, na Hora me Sinto muito bem, mas ao chegar em casa me Sinto tao mal rs mas sao coisas que eu realmente preciso, como casaco de frio rs

      Bjos

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    3. Acho que meu tempo de AuPair já foi, viu?! Tentei uma vez, larguei tudo e acabou não dando certo. Agora que retomei minha vida, quero reconstruir minha carreira profissional... Como tentei, me sinto livre da eterna dúvida!

      Se são coisas necessárias, aí vale a pena! hahaha o problema é quando são supérfluos. Quem precisa de 20 pares de sapato? (eu tenho mais do que isso e não uso metade :/)

      Beijinhos!

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  12. Aline,

    Obrigada pela visita e comentário no meu blog. Vim aqui retribuir e adorei o seu.É bom encontrar pessoas com quem temos afinidades. Adorei também o seu depoimento. Quer persistamos em nossos propósitos!

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  13. Que depoimento lindo, Aline! Me emocionei, quanta inspiração num post só <3333

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